Atualização sobre a China

A recente onda de medidas de estímulo da China provocou uma dramática alta no mercado de ações, mas ainda restam dúvidas sobre sua eficácia em lidar com os desafios econômicos mais amplos do país. Enquanto o mercado de ações reagiu rapidamente a essas políticas, com ganhos históricos na primeira semana, o impacto de longo prazo na economia continua incerto.   

Matéria do WSJ de 30 de setembro mostrando o índice da bolsa de Xangai. 

A mais recente série de medidas implementadas pelo banco central da China gerou um rápido aumento na atividade do mercado de ações no final de setembro de 2024.
'‘Em uma única segunda-feira, 143 bilhões de dólares em ações foram negociados nos mercados de Xangai, Shenzhen e Pequim em apenas 35 minutos, quebrando recordes. O índice CSI 300 subiu 25%, recuperando mais de um ano de perdas em apenas cinco sessões de negociação. O índice ChiNext de Shenzhen, focado em ações de tecnologia, teve uma impressionante alta de 15.4% em um único dia, o maior aumento desde sua criação em 2010.” (WSJ no final de setembro de 2024).    

No entanto, além da euforia da alta do mercado de ações, há uma preocupação crescente se as novas medidas poderão se traduzir em um crescimento econômico sustentável. As recentes ações do governo chinês, incluindo uma reunião do Politburo liderada por Xi Jinping, que priorizou discussões econômicas em setembro, enfatizam a gravidade da desaceleração recente. Apesar das promessas de apoio fiscal e monetário, os detalhes cruciais permanecem incertos, especialmente em relação aos esforços para estabilizar o setor imobiliário, que está em crise desde 2021. Os impulsos oferecidos pelo governo se comparam a períodos da Grande Crise de 2008. 

Relatório da Morgan Stanley (SET 2024): expectativas a respeito dos próximos passos das medidas de auxílio do governo chinês.

A economia como um todo continua sob pressão, apesar dos ganhos no mercado de ações. O setor manufatureiro da China encolheu pelo quinto mês consecutivo, com queda nos pedidos de exportação e cautela nas contratações pelas empresas. O setor de serviços também encolheu em setembro, refletindo a fraqueza na confiança dos consumidores e a desaceleração no crescimento das vendas no varejo. Embora os recentes cortes nas taxas de juros e as medidas de flexibilização de Pequim sejam passos positivos de sinalização ao mercado, economistas alertam que podem não ser suficientes. Tanto as famílias quanto as empresas permanecem hesitantes em contrair dívidas, limitando o impacto das ações do banco central e refletindo a crise de balanço que assombra a economia chinesa. Robin Xing, economista-chefe da China no Morgan Stanley, prevê que o orçamento suplementar de outubro incluirá mais 1 a 2 trilhões de RMB para ajudar os governos locais e estimular o consumo, mas alerta que a China enfrentará uma longa batalha para revitalizar a inflação e garantir um crescimento sustentável.  

Fonte WSJ: quedas históricas em vendas de imóveis na China, medido por pé quadrado. 

Novos dados destacam o quão precária é a situação do setor imobiliário. Em julho, as vendas de novos imóveis entre os maiores incorporadores da China caíram 20% em relação ao ano anterior, segundo a China Real Estate Information Corp., agravando-se em relação à queda de 17% observada em junho. Em base mensal, as vendas despencaram 36%. Esse declínio acentuado ressalta as pressões contínuas enfrentadas pelo mercado imobiliário, aumentando a urgência para que os formuladores de políticas introduzam intervenções mais robustas.   

Possivelmente, os efeitos da deflação são sentidos não apenas pelos consumidores e empresas, mas também pelos governos locais. Um grande abismo entre a receita fiscal real e a projetada surgiu, com a receita fiscal acumulada no ano caindo 5,3% em comparação com o ano anterior, muito abaixo da meta de crescimento de 3,7%. Esse déficit possivelmente pressiona os governos locais, forçando algumas regiões a considerar cortes nos salários dos funcionários públicos e na suspensão de gastos sociais básicos. Grande parte do fardo da dívida recai sobre os governos locais, apesar de muitas dívidas estarem ligadas a políticas do governo central. A disparidade regional nas dívidas e a dependência das transferências do governo central agravam ainda mais a tensão financeira. Não é acaso que ao longo do ano alguns bancos regionais estressados foram focos de matérias. 

O foco mais recente do governo em investimentos industriais de fato aumentou a produção, impactou inclusive o volume de exportações da própria Alemanha, mas também levou à queda dos preços e à redução das margens de lucro novamente. Os mercados globais estão cada vez mais preocupados com a enxurrada de exportações chinesas baratas, o que está tensionando ainda mais as relações comerciais internacionais. Enquanto isso, o setor imobiliário continua sendo um grande entrave ao crescimento. Apesar dos esforços recentes para apoiar os compradores de imóveis, economistas argumentam que são necessárias mais ações decisivas. Imagino que o setor imobiliário permanecerá uma vulnerabilidade para a recuperação econômica da China. 

Material recente do próprio governo chinês, relatório da Morgan Stanley (SET 2024): deterioração nos indicadores de dinâmica social e confiança no mercado de trabalho no fundo histórico.

Com os riscos de deflação persistentes, tensões comerciais globais em ascensão e um setor imobiliário instável, os próximos meses serão cruciais para determinar se a China pode transformar sua alta no mercado de ações em uma recuperação econômica mais ampla e duradoura, ou se mais intervenções governamentais robustas serão necessárias para tentar minimamente estabilizar a segunda maior economia do mundo. 

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